Mate de Anastasia passo a passo

Mate de Anastasia passo a passo

O mate de Anastasia é um mate de cavalo e torre contra um rei preso na coluna h, com o próprio peão de g7 fazendo o papel de carcereiro.

O nome não tem nada a ver com xadrez: veio de um romance alemão do começo do século XIX, em que o padrão aparece numa partida. Ficou.

Eu resisti a decorar mate nomeado por muito tempo, porque parecia coisa de quem estuda enfeite. Mudei de ideia quando percebi que esse aqui não é enfeite — é uma receita de conversão.

Quando as cinco condições estão na mesa, você não precisa calcular nada. Você executa.

A posição-modelo

a posição-gatilho do mate de Anastasia: cavalo em d5, dama em d3 e torre em a5 com o rei preto rocado

Brancas jogam. À primeira vista não tem nada demais aqui: o rei preto está rocado, com os três peões intactos, e as pretas têm duas torres e um bispo.

Mas essa posição é mate em três, à força, e existe um único lance que faz isso funcionar.

Antes de ver a sequência, olha as peças brancas e as casas que elas vão ocupar: o cavalo de d5 alcança e7, a dama de d3 alcança h7 pela diagonal, e a torre de a5 alcança h5 pela quinta fileira.

Guardou? Então vamos.

A sequência exata, passo a passo

Lance 1: Ce7+

depois de Ce7 com xeque o rei foi para h8, e o cavalo passa a cobrir g8 e g6

O cavalo pula para e7 dando xeque. Esse é o lance que constrói a jaula, e ele vem primeiro — a ordem aqui não é negociável.

O rei preto tem uma casa só: h8. Não pode ir para f8 porque a própria torre dele está lá, e não pode ficar por causa do xeque.

Repara no que o cavalo de e7 passou a fazer. Ele cobre g8 e g6 ao mesmo tempo. Essas duas casas são as duas únicas rotas de fuga que o rei teria mais tarde.

O cavalo não vai capturar nada nem dar mate. Ele só fecha duas portas e fica quieto.

Lance 2: Dxh7+

a dama branca entra em h7 completamente de graça, dando xeque ao rei preto em h8

A dama come o peão de h7 e se entrega, colada no rei, sem estar defendida por ninguém.

Parece absurdo. É o lance mais forte da posição.

O rei preto tem um único lance legal: capturar. Ele não tem g8 (cavalo), não tem g7 (peão próprio) e não pode ficar em xeque.

Esse é o mesmo mecanismo da atração: a dama não morreu à toa, ela morreu para colocar o rei em h7.

Lance 3: Th5 mate

o rei preto foi obrigado a capturar em h7 e agora está na coluna aberta, com a torre branca pronta em a5

Com o rei em h7, a coluna h virou uma rua sem saída. E a torre estava esperando esse momento em a5.

mate de Anastasia: torre em h5, cavalo em e7 cobrindo as saídas e o próprio peão de g7 fechando a fuga

Torre em h5, e acabou. Vale conferir casa por casa, porque é o desenho que você quer guardar:

h6 e h8 — a torre cobre a coluna inteira.

g8 e g6 — o cavalo de e7 cobre as duas.

g7 — peão preto. O próprio exército fecha a última porta.

E capturar a torre em h5 não dá: ela está a duas casas de distância do rei.

Três lances, uma dama entregue, e o mate sai com duas peças que valem oito pontos juntas.

A posição-gatilho: as cinco condições

Essa é a parte que transforma o padrão em ferramenta. Anastasia não é um lance bonito que às vezes aparece — é uma checagem de cinco itens.

1. O rei dele está em g8, com o peão em g7. O peão de g7 é obrigatório: é ele que impede a fuga. Se o adversário já jogou g6, o padrão não existe.

2. A casa f8 está ocupada ou coberta. Quase sempre pela torre dele mesmo, ainda em f8 depois do roque. Se f8 estiver livre, o rei escapa por ali no lance 1 e a sequência morre.

3. Você tem um cavalo que alcança e7. Normalmente vindo de d5, c6, f5 ou g6.

4. Você tem uma dama que alcança h7. Em geral pela diagonal b1-h7, ou pela própria coluna h.

5. Você tem uma torre com caminho livre até a coluna h. Pela quinta fileira, como no exemplo, ou por uma coluna h já aberta.

Cinco itens. Se os cinco estiverem lá, o mate está lá — não precisa calcular, precisa executar.

Os dois erros que perdem o ponto

Erro 1: inverter a ordem

O erro clássico é começar pela dama, porque o sacrifício é o lance vistoso e a gente se apaixona por ele.

Se você joga Dxh7+ antes de o cavalo estar em e7, o rei captura e vai embora tranquilo por g6 ou g8 no lance seguinte. Você entregou a dama e não tem mate nenhum.

A ordem tem uma lógica simples: primeiro se fecha a jaula, depois se empurra o rei para dentro. Cavalo, dama, torre. Sempre nessa sequência.

Erro 2: esquecer de conferir o caminho da torre

O segundo erro é mais bobo e igualmente fatal: você executa os dois primeiros lances e descobre que a torre não chega na coluna h.

Pode ser uma peça sua atravessada na quinta fileira, pode ser o seu próprio peão de h2 trancando a torre de h1, pode ser que a torre esteja defendendo outra coisa e não possa sair.

Confere o lance 3 antes de jogar o lance 2. Depois de entregar a dama não existe volta.

O exercício final

Esse padrão se aprende com as mãos, não com os olhos. O treino que funcionou para mim foi este, e leva uns dez minutos.

1. Monta a posição final no tabuleiro: rei preto em h7, peão em g7, cavalo branco em e7, torre branca em h5.

2. Tira a torre. Repara que sem ela não tem mate nenhum, só um rei incomodado.

3. Devolve a torre e tira o cavalo. Repara que o rei foge por g8 e por g6.

4. Devolve o cavalo e tira o peão de g7. Repara que o rei foge por ali.

Fazendo isso você para de memorizar uma foto e passa a entender qual peça cobre qual casa. Aí o padrão aparece sozinho nas suas partidas, inclusive em versões diferentes da original.

Depois, o passo que rende mais: joga umas partidas procurando a condição número 1. Rei em g8 com peão em g7 e torre em f8 é a estrutura mais comum do xadrez — você vai encontrar em quase toda partida.

Perguntas que sempre aparecem

Preciso mesmo sacrificar a dama?

Nessa versão, sim: é o sacrifício que arrasta o rei para h7. Existem versões em que o rei já está em h7 por conta própria, e aí a torre entra direto e o mate sai de graça.

Funciona com a torre em vez da dama no lance 2?

Funciona quando a torre pode chegar a h7 e há uma segunda peça pesada para dar o mate depois. O motor da coisa é sempre o mesmo: alguém se entrega em h7 para puxar o rei.

Qual a diferença para o mate do corredor?

No mate do corredor o rei morre na oitava fileira, preso pelos três peões. No Anastasia ele morre na coluna h, preso por um peão só e por um cavalo.

São primos: nos dois, quem tranca o rei é o próprio exército dele.

Como me defendo disso?

A defesa mais barata é tirar a torre de f8 em algum momento, ou dar respiro ao rei antes que o cavalo chegue a e7. E, claro, prestar atenção quando um cavalo adversário fica a um pulo de e7.

O resumo que vale levar

Anastasia é cavalo em e7, dama entregue em h7 e torre entrando na coluna h. Nessa ordem, sempre.

O cavalo cobre g8 e g6, a torre cobre h6 e h8, e o peão de g7 do próprio adversário fecha o resto. É por isso que duas peças bastam.

Antes de entregar qualquer coisa, roda a checagem de cinco itens — principalmente o caminho da torre, que é o que costuma faltar.

E o padrão vale menos pelo mate em si do que pelo hábito que ele cria: olhar o roque do adversário e perguntar quais casas o exército dele já está bloqueando de graça.

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