Dama contra peão na sétima e quando o empate aparece

Você tem uma dama e ele tem um peão a um lance de promover. Isso é vitória garantida?

Parece pergunta boba. Dama contra peão é nove pontos contra um.

Só que não é. Em metade das colunas do tabuleiro esse final é empate — e não empate por descuido, empate com jogo perfeito dos dois lados.

Testei as oito colunas, uma por uma, na base de finais. Quatro ganham e quatro empatam, e o padrão é bem definido.

Este artigo é organizado pelas perguntas que essa posição levanta, na ordem em que elas aparecem no tabuleiro.

O que é “peão na sétima”?

É o peão que está a um lance de virar dama. Nos diagramas daqui, é o peão preto na segunda fileira — ele anda uma casa e promove.

peão preto em c2 a um lance de promover, dama branca em f5 e rei branco lá longe em h7; a posição é empate

Peão preto em c2, rei preto em b1 escoltando. Dama branca em f5, rei branco lá em h7, do outro lado do mundo.

A base de finais dá empate.

Repara que as brancas têm nove pontos de material contra um. E isso não decide nada.

Por que a dama não ganha sozinha?

Porque a técnica da dama depende de uma coisa que parece pequena: ela precisa ganhar um tempo para o rei se aproximar.

O procedimento clássico é sempre o mesmo. A dama dá xeques que empurram o rei adversário para a frente do próprio peão. Enquanto o rei bloqueia o peão, o peão não anda — e nesse lance de folga o rei branco dá um passo.

Repete isso cinco, seis vezes e o rei branco chega. Aí acaba.

O final inteiro é essa engrenagem: a dama não ganha o peão, ela compra tempo para o rei chegar.

E existe um jeito de a engrenagem travar.

Qual é o truque que salva o peão?

o truque do empate: com o rei preto em a1, capturar o peão de c2 deixa as pretas afogadas

Aqui está ele. Rei preto no canto em a1, peão em c2, dama branca em b3 controlando tudo.

As brancas capturam o peão com Qxc2 e a partida acaba na hora — afogamento. Conferi: as pretas ficam com zero lances legais e não estão em xeque.

Empate.

É por isso que o peão de bispo salva. Em vez de ir para a frente do próprio peão quando levar xeque, o rei preto foge para o canto, e o canto é veneno para a dama.

A dama, para não afogar, precisa dar um lance de espera — e é exatamente o lance de espera que ela não pode dar, porque a vez volta para as pretas e o peão promove.

Em quais colunas o empate aparece?

Essa é a pergunta que resolve o assunto na prática. Montei a mesma situação nas oito colunas, sempre com o rei branco longe, e mandei cada uma para a base:

Coluna do peão Tipo de peão Resultado
a torre empate
b cavalo a dama ganha
c bispo empate
d dama a dama ganha
e rei a dama ganha
f bispo empate
g cavalo a dama ganha
h torre empate

Quatro empates e quatro vitórias, e a regra sai da coluna do meio: peão de torre e peão de bispo empatam; todo o resto perde.

Vale decorar assim, pelas letras: a, c, f, h salvam. São as quatro colunas onde o rei defensor tem um canto útil por perto.

Por que justamente essas quatro?

mesma ideia com o peão na coluna b; aqui não existe afogamento e as brancas ganham

Compare com o peão de cavalo, na coluna b. Mesmo material, mesma ideia, e aqui as brancas ganham.

A diferença é o afogamento. Com o peão em b2 e o rei preto em a1, a dama tem casas de sobra para dar xeque sem sufocar o rei — o canto fica ocupado pelo próprio rei preto, e não sobra o truque.

No peão de bispo o rei foge para o canto e o peão fica fora do canto, que é a combinação exata que produz o afogamento.

No peão de torre o mecanismo é parecido, mas o rei defensor faz o contrário do que parece certo: ele vai para a frente do próprio peão.

Rei preto em a1, peão preto em a2, dama branca em b3. O peão está bloqueado pelo próprio rei e o rei não tem para onde ir — conferi, são zero lances legais e nenhum xeque. Afogamento.

Ou seja: as pretas se enfiam num beco de propósito, e o beco é a salvação. Qualquer aproximação da dama congela a posição.

São dois truques diferentes para o mesmo fim. No peão de bispo, a dama afoga ao capturar; no peão de torre, ela afoga ao chegar perto.

São situações de geometria, não de força. Por isso nenhuma quantidade de técnica muda o resultado.

Como é a vitória quando ela existe?

Vale ver a engrenagem funcionando, porque ela fica óbvia quando você olha a sequência inteira.

Na posição do peão de cavalo, a linha da base começa assim: 1.Kg6 Ka2 2.Qe2 Kb3 3.Qd1+ Ka2 4.Qa4+ Kb1 5.Kf5.

Olha o primeiro lance e o quinto. Os dois são lances de rei, e o rei está do outro lado do tabuleiro, sem nenhuma relação aparente com o peão.

É esse o final inteiro. A dama dá dois ou três xeques que prendem o rei preto e travam o peão; quando o peão está travado, as brancas param de dar xeque e simplesmente andam com o rei.

Depois repetem. Xeque, xeque, passo de rei. Xeque, xeque, passo de rei.

São 25 lances de dtz até a captura do peão nessa posição — não é rápido, e não precisa ser. Cada ciclo aproxima o rei uma casa, e uma hora ele chega.

E se o meu rei estiver perto?

a mesma posição do peão de c, agora com o rei branco em e4; com o rei perto as brancas ganham

Aí muda tudo, e essa é a informação mais útil do artigo.

Peguei a posição de empate do peão de c e mudei uma coisa só: trouxe o rei branco de h7 para e4. Resultado: as brancas ganham.

Testei o mesmo com o peão de h e deu igual — com o rei perto, ganha.

O motivo é que o afogamento só funciona porque o rei branco está longe. Com o rei por perto, ele tira as casas de fuga, cobre o canto e o truque some.

Então a tabela não é sobre a coluna sozinha. É sobre a coluna com o rei branco distante. Aquelas quatro colunas dão ao defensor tempo suficiente para montar a armadilha antes que o rei chegue.

Como jogar isso na prática

Do lado da dama, três coisas na ordem:

1. Olhe a coluna antes de calcular. Se for a, c, f ou h e o seu rei estiver longe, não perca cinco minutos procurando a vitória — jogue para o empate com a consciência tranquila.

2. Se for outra coluna, comece os xeques. Empurre o rei dele para a frente do peão e aproveite cada lance travado para andar com o seu rei.

3. Ande com o rei sempre que a dama não tiver xeque útil. É o rei que ganha o final; a dama só segura o peão no lugar. Vale o mesmo que aparece no rei ativo no final.

Do lado do peão, duas:

1. Escolha a coluna antes de chegar lá. Se você vai perder material e sobrar com um peão só, tente que ele seja o de torre ou o de bispo. Essa decisão costuma acontecer dez lances antes.

2. Vá para o canto, não para a frente do peão. É contraintuitivo — parece que abandonar o peão é entregar. Mas é justamente a fuga para o canto que arma o afogamento.

Perguntas rápidas que sobram

Vale a pena promover para torre em vez de dama?

Do lado de quem promove, às vezes sim — torre evita alguns afogamentos. Mas aqui o assunto é o contrário: quem tem a dama já está com ela em campo.

E se o peão estiver na sexta em vez da sétima?

Melhor ainda para a dama. Um lance a mais de peão é um lance a mais para o rei se aproximar, e as quatro colunas de empate deixam de salvar.

Isso cai em partida de verdade?

Cai mais do que parece. É o final típico de quem promoveu primeiro numa corrida de peões — e corrida de peões é o desfecho natural do peão passado exterior.

Preciso decorar a técnica dos xeques?

Não decore a sequência, entenda a função: cada xeque existe para tirar um lance do peão e dar um passo ao rei. Sabendo disso, você reinventa a técnica no tabuleiro.

O resumo que vale levar

Dama contra peão na sétima não é vitória automática. Nas oito colunas testadas, quatro empatam com o rei branco longe.

As quatro que salvam são a, c, f e h — peão de torre e peão de bispo. A arma é o afogamento: a dama captura o peão e a partida acaba empatada porque as pretas ficam sem lance legal.

A vitória nas outras colunas vem de uma engrenagem só: xeque que trava o peão, tempo que o rei usa para chegar perto.

E a condição que muda tudo é a distância do rei. Com ele em e4 em vez de h7, até o peão de bispo perde.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima