Ataque duplo de dama sem expor a peça mais forte

Ataque duplo de dama sem expor a peça mais forte

Tem uma sequência de lances que eu repeti umas trinta vezes antes de perceber o padrão.

Eu via um ataque duplo de dama, jogava com o coração acelerado, e o adversário respondia com um lance simples que eu não tinha olhado. A dama voltava correndo, e eu tinha perdido dois lances para não ganhar nada.

Demorei para aceitar o motivo: a dama é a melhor peça para dar ataque duplo e a pior peça para deixar exposta. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e todo o assunto está em administrar isso.

A posição concreta

dama branca em d5 atacando a torre de a8 e o cavalo de d8 ao mesmo tempo

Essa é a versão que funciona. A dama em d5 ataca a torre de a8 pela diagonal e o cavalo de d8 pela coluna.

Os dois estão indefesos. As pretas salvam um, você leva o outro.

Repara por que a dama é tão boa nisso: ela ataca em oito direções. Uma torre ataca em quatro, um bispo em quatro, e o cavalo em oito casas fixas.

Com oito direções, encontrar duas peças alinhadas com uma casa é muito mais fácil. Por isso o duplo de dama é a tática mais frequente do tabuleiro inteiro.

O que o iniciante joga

Joga a dama para o duplo assim que enxerga, e é exatamente o que eu fazia.

O raciocínio parece impecável: ataquei duas coisas, ele só salva uma, logo eu ganho material. A lógica está certa e falta uma linha.

Falta a linha que pergunta o que acontece com a dama depois.

Por que perde

mesmo duplo anulado porque o peão preto de e6 ataca a casa onde a dama parou

Mesma posição, um peão preto a mais em e6. E o duplo simplesmente deixou de existir.

O peão ataca d5. As pretas não precisam salvar torre nem cavalo — elas capturam a dama, e nem precisam pensar muito.

Essa é a diferença entre a dama e qualquer outra peça atacante. Um cavalo que dá garfo numa casa atacada perde três pontos. A dama perde nove.

E tem a versão mais sutil, que me pegava mais vezes: a casa não está atacada agora, mas está a um lance de estar. O adversário responde ao duplo com um lance que ataca a dama, e você é obrigado a recuar antes de coletar.

Nesse caso você não perde material — perde tempo, que na abertura é quase a mesma coisa. É o assunto de o que é tempo no xadrez.

O lance certo e o princípio

O princípio cabe numa frase: um duplo de dama só vale se a casa da dama for segura por pelo menos um lance.

“Um lance” é o suficiente, porque é o tempo que você precisa para coletar. Se ela sobreviver ao lance de resposta do adversário, o negócio fecha.

E existe uma versão do duplo em que essa conta é automática.

duplo com xeque: a dama ataca o rei de g8 e a torre de a8 na mesma jogada

Aqui um dos dois alvos é o rei. A dama dá xeque e ataca a torre no mesmo lance.

Agora não interessa se a casa dela está atacada por alguma coisa, contanto que essa alguma coisa não possa capturá-la enquanto o rei está em xeque.

O adversário é obrigado a atender o xeque. Se a única forma de atender for mover o rei, a torre já era.

É a mesma hierarquia do descoberto: entre duas táticas parecidas, a que vem com xeque tira a escolha do outro lado. Com a dama isso vale dobrado, porque é o que a protege de ser caçada.

As quatro posições-modelo

Depois de anotar os meus duplos que deram errado, sobraram quatro configurações. Elas cobrem praticamente tudo, e a diferença entre elas é só onde a dama pousa.

duplo inútil com os dois alvos defendidos e o cavalo de b6 ainda atacando a dama

Essa quarta é a mais cruel, porque parece a primeira. A dama ataca a torre e o cavalo, exatamente como no diagrama inicial.

Só que agora a torre de a8 está defendida pelo cavalo de b6, o cavalo de d8 está defendido pelo bispo de c7, e — para completar — o cavalo de b6 ainda ataca a casa d5.

Nenhuma captura vale a pena, e a dama ainda precisa fugir. O duplo era ilusão.

Modelo Como identificar Vale a pena?
1. Duplo seguro Dois alvos indefesos, casa da dama limpa Sim — ganha o menor dos dois
2. Casa insegura Peão ou peça menor mira a casa da dama Não — você perde nove por três
3. Duplo com xeque Um dos alvos é o rei Sim, o melhor de todos
4. Alvos defendidos Os dois alvos têm defensor Não — trocar dama por peça é prejuízo

Repara que a diferença entre o modelo 1 e o modelo 4 não está no ataque. Está no que existe em volta.

É por isso que eu errava tanto: eu olhava as duas linhas de ataque e não olhava o resto do tabuleiro.

As três perguntas antes de mover a dama

Hoje eu rodo isso antes de qualquer duplo, e leva uns dez segundos.

1. Quem ataca a casa onde eu vou parar? Peão em primeiro lugar, sempre. Depois cavalo e bispo. Se alguma peça menor alcança aquela casa, na maioria das vezes já acabou.

2. Os dois alvos estão indefesos? Alvo defendido só vale se for mais valioso que a dama — e nada é. A única exceção é quando o alvo defendido é o rei, que não pode ser “defendido” contra xeque.

3. Ele consegue responder criando uma ameaça? Essa é a pergunta que separa quem melhorou de quem não. O adversário não precisa capturar a dama: basta um lance que salve uma peça e ataque outra coisa sua.

Se as três respostas forem boas, joga sem medo. Se qualquer uma falhar, guarda o duplo — ele costuma continuar disponível depois.

Onde os duplos de dama mais aparecem

Vale saber onde procurar, porque eles se repetem nos mesmos lugares.

A casa central com duas diagonais livres. Dama no meio do tabuleiro toca quase tudo. O problema é que o meio do tabuleiro também é onde ela é mais atacada — por isso o duplo central quase sempre precisa vir com xeque.

A fileira de trás depois de uma troca. Torre e cavalo que ainda não saíram de casa ficam alinhados com um monte de casa, e a dama entra pela coluna que abriu.

Depois de um xeque que o rei responde andando. Esse é o mais lucrativo e o mais esquecido: o rei é obrigado a ir para uma casa específica, e aquela casa às vezes completa um alinhamento com outra peça dele.

Foi assim que eu ganhei a maioria dos meus duplos bons — não procurando o duplo, e sim olhando o tabuleiro depois de uma sequência forçada.

O duplo defensivo, que quase ninguém usa

Tem um uso do ataque duplo de dama que eu só descobri depois de um ano, e ele salva partida em vez de ganhar.

Quando você está sob ataque e não consegue defender tudo, muitas vezes existe uma casa de onde a dama ataca duas coisas dele — e ele precisa parar o ataque para cuidar delas.

Não é sobre ganhar material. É sobre comprar dois lances com um só.

A configuração mais comum: a dama entra dando xeque numa casa de onde também ataca a peça que estava liderando o ataque contra você. O xeque obriga, e a peça atacada precisa sair.

Isso é especialmente forte quando você está pior, porque quem está atacando raramente tem tempo de arrumar a casa.

E funciona pelo mesmo motivo de sempre: a dama tem oito direções. Numa posição confusa, quase sempre existe uma casa que toca duas coisas ao mesmo tempo — a dificuldade é lembrar de procurar quando você está com medo.

Como treinar isso

O exercício das peças soltas. Em cada posição, liste as peças do adversário que não têm defensor. Só isso, sem procurar tática nenhuma.

Duplo de dama é quase sempre duas peças soltas alinhadas com uma casa. Se você mapeia as soltas, o duplo aparece sozinho.

O exercício da casa segura. Antes de mover a dama para qualquer lugar — não só em duplo — pergunte quem ataca aquela casa. Vira reflexo em umas duas semanas.

Revisar os duplos que falharam. Anote os seus. Eu descobri que 80% dos meus erros eram o mesmo: peão do adversário controlando a casa, e eu não tinha olhado peão nenhum.

Perguntas que sempre aparecem

Duplo e garfo são a mesma coisa?

São. “Garfo” é o termo mais usado para cavalo e peão, e “ataque duplo” para as peças de linha, mas o mecanismo é idêntico: uma peça, dois alvos.

A diferença prática é o risco. Um garfo de cavalo arrisca três pontos; um duplo de dama arrisca nove — ver garfo de cavalo e as casas de onde ele mais aparece.

Vale sacrificar algo para armar o duplo?

Vale quando a conta fecha até o fim. Entregar um peão para que o rei dele seja obrigado a ir para a casa que completa o alinhamento é um clássico.

O que não vale é entregar material esperando que apareça. Duplo se calcula, não se torce.

A dama pode atacar três peças de uma vez?

Pode, e acontece mais do que parece — ela tem oito direções. Mas cuidado com a euforia: três alvos defendidos continuam valendo zero.

Número de alvos importa menos que a qualidade deles. Um alvo indefeso vale mais que três protegidos.

Por que meu adversário sempre escapa dos meus duplos?

Provavelmente porque ele responde com um lance que faz duas coisas: salva a peça e cria uma ameaça. É a defesa padrão contra qualquer ataque duplo.

O antídoto é a terceira pergunta da lista — antecipar a resposta dele antes de jogar a sua.

Devo tirar a dama cedo para procurar duplo?

Não. A dama cedo é caçada de graça pelas peças menores, e o assunto está inteiro em por que sair com a dama cedo custa caro.

Os duplos de dama que decidem partida acontecem no meio-jogo, depois que as peças menores já se trocaram e sobrou espaço para ela trabalhar.

O resumo que vale levar

A dama é a melhor peça para atacar duas coisas e a pior para deixar exposta. Todo duplo de dama é uma conta entre essas duas verdades.

Quatro modelos: seguro (dois alvos soltos, casa limpa), inseguro (alguém mira a casa dela), com xeque (o melhor de todos) e ilusório (alvos defendidos).

Antes de mover: quem ataca essa casa, os alvos estão soltos, e o que ele responde?

Se você adotar só a primeira pergunta, já melhora. Foi ela que parou minhas trinta damas voltando correndo para casa.

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