Muita gente hoje em dia reclama do Fies, e não é para menos. A gente ouve falar de dívida alta, gente que não consegue pagar, renegociação, o tal do Desenrola, e aquela sensação de que o boleto nunca acaba. Sem contar o desabafo comum: “eu só queria estudar!”.
Mas é bom lembrar que, uns dez anos atrás, o Fies estava à beira de um colapso. Não é exagero, não. Entre 2010 e 2015, o Fundo de Financiamento Estudantil cresceu demais, ficou muito caro e uma bagunça.
O número de contratos disparou de uns 200 mil para quase 2 milhões. E o custo do programa para o governo? Saiu de R$ 1,9 bilhão para mais de R$ 29 bilhões. É muita coisa!
Parecia até uma startup recebendo um monte de dinheiro sem ninguém perguntar como aquilo ia se pagar. A ideia do Fies sempre foi super importante: ajudar quem não tem muita grana a fazer uma faculdade. O problema estava em como ele funcionava.
### Os problemas do Fies antigamente
Os especialistas que estudaram o assunto apontam que três grandes falhas começaram a sufocar o programa. Primeiro, o risco financeiro ficava quase todo nas costas do governo. Se o aluno não pagasse, a União que arcava com a conta.
Segundo, a forma como os subsídios funcionavam não era muito clara. Ninguém sabia direito para onde o dinheiro estava indo. E terceiro, a gestão do programa simplesmente não conseguia controlar o crescimento.
Na prática, o sistema incentivava o crescimento sem que ninguém se preocupasse com as consequências. As faculdades particulares, por exemplo, quase não dividiam o risco. Muita gente até achava que o financiamento era uma bolsa de estudos, e não um empréstimo que precisava ser pago.
Por causa disso, a inadimplência, ou seja, a quantidade de gente que não conseguia pagar as parcelas, começou a subir de um jeito assustador. Em vários contratos, mais de 40% dos alunos não conseguiam quitar a dívida depois de formados. É quase metade das pessoas!
### A virada de chave: a reforma do Fies
Esse cenário começou a preocupar o governo lá em 2015. A Maria Helena Guimarães de Castro, que era secretária-executiva do MEC na época, levou o problema direto para a equipe econômica do Ministério da Fazenda.
Quando o MEC e a Fazenda começam a conversar com cara de preocupação, geralmente significa que tem um problemão escondido. Foi aí que surgiu a ideia de mudar o programa por completo.
A reestruturação, que aconteceu entre 2016 e 2017, mudou muito a forma como o Fies operava. A reforma se baseou em três pilares principais.
### Pagamento que combina com a sua renda
Com as novas regras, o pagamento do Fies ficou mais próximo da realidade financeira do estudante. A ideia era simples: não adianta cobrar como se todo recém-formado virasse um CEO logo de cara.
Também acabou aquela carência longa que existia antes. Agora, os estudantes participam financeiramente de forma mais ativa já durante o curso. O objetivo era deixar bem claro que o Fies é um financiamento, um empréstimo, não uma bolsa de graça.
### Risco dividido para todo mundo
Antes, o governo federal bancava quase todo o prejuízo. A reforma criou o FG-Fies, que é um fundo garantidor. Ele passou a dividir os riscos entre a União e as faculdades.
Ou seja, as instituições de ensino também começaram a ter mais responsabilidade sobre o modelo que elas ajudavam a expandir. Uma ideia bem lógica: se todo mundo ganha com o financiamento, todo mundo também assume uma parte do risco.
### Mais controle fiscal
A reforma também trouxe mecanismos de planejamento e gestão para evitar que os gastos saíssem do controle de novo. Entre as mudanças, criaram um Comitê Gestor, um planejamento que vale por três anos e mais transparência sobre os subsídios.
Também definiram de forma mais clara quais eram os custos do programa. Basicamente, o governo percebeu que era importante saber quanto estava gastando antes para não ter surpresas desagradáveis depois.
### O Desenrola Fies e as dívidas antigas
Os especialistas dizem que até o Desenrola Fies, aquele programa para renegociar dívidas, acabou mostrando o tamanho dos problemas do modelo antigo. A necessidade de renegociar bilhões em dívidas com descontos enormes revela o quanto se acumulou de passivos antes da reforma.
E um detalhe importante: a maior parte dessas dívidas renegociadas ainda é dos contratos antigos. O governo atual, de certa forma, está arrumando a bagunça que ficou do jeito que o programa era antes.
### O Fies hoje: ainda com desafios, mas mais estável
O Fies ainda recebe críticas, claro. Ele enfrenta desafios e precisa de ajustes constantes. Mas os autores da análise defendem que a reforma evitou algo muito pior: a inviabilidade completa do financiamento estudantil federal.
E, olhando para trás, faz sentido. Um programa com uma inadimplência gigantesca, um custo que explodia e um crescimento sem controle não duraria muito tempo.
O caso do Fies virou uma lição prática sobre políticas públicas no Brasil: ampliar o acesso à educação é super importante, mas ignorar a sustentabilidade financeira cobra um preço depois. E quando essa conta chega, ela geralmente vem parcelada em muitas vezes.
No fim das contas, o Fies continua existindo. Só que agora ele tem um modelo mais controlado, menos explosivo e com regras mais claras. E talvez por isso, dez anos depois, a discussão não é mais “o programa vai acabar?”, mas sim “como podemos evitar que ele vire um problemão de novo no futuro?”.